Cigarro: o inimigo mora nos lábios

Além do alto índice de mortalidade, em decorrência do câncer de pulmão e outras enfermidades

CORREIO DO ESTADO / MARCOS PIERRY


Quem fuma sabe, ou deveria saber, o mal que o hábito faz. Hábito bem entre aspas, para não generalizar como vício, já que a maioria das pessoas que não passam sem um cigarrinho treme somente de pensar na ideia de abandonar o “hábito'. 

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Brasil registra mais de 31 mil novos casos de câncer de pulmão, traqueia e brônquio por ano. O de pulmão, o mais letal, tem um índice de mortalidade de 82%.

QUESTÃO DE PELE

Além dos prejuízos mais conhecidos que o cigarro provoca à saúde, especialistas alertam, em uma ampla mobilização durante este mês, que o tabaco também é extremamente prejudicial à pele. Maio é o “mês de combate ao fumo' na agenda dos profissionais da área médica, e um dos alertas da temporada relaciona-se aos riscos de danos e desenvolvimento de anomalias e doenças na epiderme.

A começar pela questão estética, que, para muito além da simples vaidade pessoal, pode servir de termômetro para a qualidade de vida que se costuma proporcionar à parte “de dentro' do corpo. 

Na harmonização facial, muito em voga nos últimos tempos, mesmo com alguns questionamentos, podem ser realizados diversos procedimentos para ajudar no rejuvenescimento e beleza da pele. 

Do mesmo modo que onera as funções do corpo no interior do organismo, o cigarro pode, sim, ser um grande inimigo do que se vê “por fora'. Segundo uma regra geral, consenso entre dermatologistas e esteticistas, quem vê cara vê fumante. Basta, naturalmente, que a pessoa seja praticante do tabagismo.

ENVELHECIMENTO

Membro da Academia Internacional de Estética Facial, o cirurgião dentista dr. Ajuz – é assim que o especialista costuma se apresentar, apenas pelo sobrenome – explica por que o hábito de fumar contribui para o envelhecimento precoce.

Segundo o médico, o cigarro afeta, e muito, a saúde da pele, prejudicando a aparência de quem fuma. 

Ele tem um trabalho destacado, a partir da atuação em sua clínica, na cidade do Porto (Portugal), nas áreas de endodontia e procedimentos estéticos, tendo participado da formação de mais de cinco mil profissionais de vários países, inclusive, o Brasil.

“Todos sabemos que o cigarro faz mal à saúde e ainda pode favorecer o aparecimento de alguns tipos de câncer', afirma dr. Ajuz. Para além disso, acrescenta, “a vasoconstrição piora muito a qualidade da pele, pois há diminuição da irrigação sanguínea'. 

O médico conta que o fumo também interfere no funcionamento natural da pele, causando, além do envelhecimento precoce, flacidez e até manchas.

TOXINAS E SECURA

De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), “o cigarro é uma grande fonte de toxinas e outras substâncias [como a nicotina] que aumentam a produção de radicais livres [as moléculas instáveis que agridem a epiderme, acelerando seu envelhecimento] e atrapalham o funcionamento natural da pele'.

Segundo o cirurgião dentista, em razão de suas propriedades oxidativas, o tabagismo resulta em uma pele mais seca e a deixa com metais pesados. 

A SBD também alerta para uma manifestação mais evidente dos efeitos do cigarro na pele: o surgimento de manchas amareladas, principalmente na ponta dos dedos. Com o contato da nicotina no local, a partir do calor do cigarro, as unhas também ficam completamente impregnadas com a substância.

PSORÍASE

Outra doença que pode ser ocasionada pelo tabagismo é a psoríase. 

Trata-se de uma enfermidade de caráter crônico e inflamatório, que recorrentemente aparece nos prontuários de atendimento da médica dermatologista Clessya Rocha, que explica sobre os possíveis sintomas da doença e sobre as formas de tratamento para combater o problema.

Segundo a médica, a doença é caracterizada por lesões avermelhadas e descamativas, normalmente em placas, que aparecem, em geral, no couro cabeludo, cotovelos e joelhos. Algumas atitudes, afirma a dermatologista, podem contribuir para o aparecimento ou agravar a doença. 

“Nós temos alguns gatilhos desencadeadores, como o tabagismo', diz Clessya Rocha. “O álcool e o estresse também estão associados ao fator de piora', enumera a especialista.

TROCANDO A CASCA

“Na epiderme, há a troca da pele a cada 25 dias, 28 dias. Nas lesões da psoríase há uma produção acelerada da epiderme, em que a pele é trocada a cada 5 dias, 8 dias. E isso vai gerar uma placa eritematosa e descamativa', explica dra. Clessya. 

Segundo a médica, “pacientes com sobrepeso e obesidade podem ter uma doença agravada, pois essas células produzem interleucinas inflamatórias, que são substâncias que vão piorar essas lesões'.

TRATAMENTO

Sobre o tratamento, a dermatologista pontua que, quando se fala sobre a psoríase, não se foca somente em tratar as lesões com cremes e pomadas, mas o paciente como um todo. “Precisamos orientar o nosso paciente a ter um estilo de vida anti-inflamatório', propõe.

“Isso significa que ele deve cuidar, por exemplo, do sono, para que tenha uma boa qualidade de sono, e da alimentação, entre outros cuidados. 

É necessário informá-lo que ele tem que evitar os alimentos inflamatórios e investir em uma dieta anti-inflamatória, com vegetais, verduras e alimentos cozidos, por exemplo.

 Esse é um ponto muito importante, pois pacientes com psoríase têm um risco aumentado de doença arterial coronariana', alerta a médica.

Além de uma dieta e de um regime de sono mais saudáveis, a médica pontua que “o estresse é um fator de piora importante, mas não só ele, assim como todo o estilo de vida do paciente'.

O Dia Mundial sem Tabaco celebra anualmente, no dia 31 de maio, os esforços da militância antitabagista. 

De acordo com dados do Ministério da Saúde, divulgados em 2021, são mais de 160 mil mortes anuais atribuíveis ao tabaco, o que representa 443 mortes por dia. 

O tabaco é responsável por mais de 8 milhões de mortes por ano no mundo. Até 2030, pode ser responsável por 10% do total de mortes globais.

Pulmão tem chance de cura de até 70%

O câncer de pulmão apresenta três alternativas terapêuticas: cirurgia, radioterapia e quimioterapia. 

Estes métodos podem ser associados para obter melhores resultados. Tumores restritos ao pulmão, nos estágios 1 e 2, devem ser operados e removidos. Nestes casos, a chance de cura é de até 70%.