Como Mundial de Clubes se transformou e virou massacre da Europa contra os outros continentes

Sentença Bosman foi assinada 17 dias antes de o Grêmio perder para o Ajax. Naquele dia, a América do Sul ganhava da Europa por 19 x 14 em títulos intercontinentais

GLOBOESPORTE.COM


Não se deve olhar para os Mundiais de Clubes como um duelo de forças entre países, como acontece com seleções nacionais. As competições entre os campeões da Europa, América, Ásia, África e Oceania carregam o desequilíbrio, desde que foi assinada a sentença Bosman, em 15 de dezembro de 1996. Naquele dia, a Fifa ainda não havia oficializado o Mundial e os duelos da velha Copa Intercontinental registravam 19 troféus para a América e 14 para a Europa.

Já havia um certo desequilíbrio desde 1988, marcado pelo supertime do Milan, na temporada em que os europeus permitiram a inclusão de um terceiro jogador estrangeiro em seus elencos -- a Itália, especialmente. Mas o caso Bosman terminou com o limite de jogadores do exterior. Quem tivesse passaporte europeu poderia transitar e trabalhar em qualquer clube da Comunidade Econômica Europeia.

Claro que passou a ser um processo. Não aconteceu da noite para o dia a transformação que transformou em um massacre a vantagem dos europeus. Se em 1995, a distância era de 19x14 a favor dos sul-americanos, a sequência da história da intercontinental até sua última edição, em 2004, passou a ser de 7x2 a favor da Europa. No Mundial oficial criado pela Fifa em 2000, são doze troféus para os europeus e apenas quatro para os sul-americanos.

Um dos exemplos mais bem acabados da mudança se deu em 1999. No dia 30 de novembro daquele ano, o Manchester United venceu o Palmeiras com seis ingleses, dois irlandeses e um francês, um holandês e um norueguês. Como na velha primeira divisão inglesa, os irlandeses tinham permissão para jogar como se fossem britânicos, havia três estrangeiros.

Menos de um mês depois, o Chelsea venceu o Southampton por 2 x 1 e tornou-se o primeiro clube da história a escalar onze forasteiros: De Goey (holandês), Ferrer (espanhol), Émerson Thomé (brasileiro), Leboeuf (francês) e Babayaro (nigeriano): Petrescu (romeno), Di Matteo (italian;o), Deschamps (francês) e Poyet (uruguaio), Ambrosetti (italiano) e Tore Andre Flo (norueguês).

O técnico era o italiano Gianluca Vialli. Onze anos depois, a Internazionale tornou-se a primeira e única campeã da Champions League com onze estrangeiros. O português José Mourinho escalou, na decisão contra o Bayern, Júlio César (brasileiro), Maicon (brasileiro), Lúcio (brasileiro), Samuel (argentino) e Chivu (romeno); Zanetti (argentino) e Cambiasso (argentino); Eto'o (camaronês), Sneijder (holandês) e Pandev (macedônio); Diego Milito (argentino). O Bayern tinha só três alemães: Oliver Kahn, Phillip Lahm e Badstuber.

Da era dos três estrangeiros, chegou-se aos três nativos.

O último sul-americano campeão, o Corinthians tinha um titular estrangeiro: Paolo Guerrero. O Palmeiras deve entrar em campo contra o Tigres com o paraguaio Gustavo Gómez e o uruguaio Matías Viña. Os mexicanos serão seis, completados por um brasileiro, dois argentinos, um colombiano e um francês.

É claro que o Palmeiras tem chance de quebrar a hegemonia da Europa, mas sua única arma é ter estratégia e entender que a superioridade técnica do Bayern é resultado do desequilíbrio econômico.

Não pense que se trata de rechear os representantes brasileiros de jogadores internacionais. O desequilíbrio é econômico. O Brasil é o segundo país com mais jogadores escalados na Champions League. Há menos brasileiros do que franceses, mais do que alemães, espanhóis, ingleses, italianos, holandeses ou portugueses. Imagine que estes jogadores com experiência na Champions jogassem dentro de seu próprio país.

Era a realidade dos mundiais de clubes antes da sentença Bosman.